Vamos analisar e refletir sobre quem foi o maior responsável para as relações Rússia-Ocidente terem chegado ao seu pior nível, desde a independência Russa, ao final da URSS. Postarei uma análise, e ao final, minhas considerações.
Por que as relações
entre Rússia e EUA estão no pior momento desde a Guerra Fria
Da BBC News
19/10/2016 - 13h06
Difícil lembrar de um período, desde o
fim da chamada Guerra Fria, em 1991, em que as relações entre Rússia e EUA
tenham estado tão ruins.
O governo americano classifica como
"massacre" a ofensiva conjunta das forças sírias e russas na cidade
de Aleppo e denuncia crimes de guerra.
O presidente russo, Vladimir Putin,
falou claramente sobre a deterioração do clima entre Washington e Moscou e
insistiu em afirmar que o governo de Barack Obama prefere fazer imposições a
dialogar.
Ainda assim, russos e americanos
continuam discutindo a situação na Síria.
Isso porque, apesar de toda retórica e
acusações, os dois países sabem que têm um importante papel em qualquer acordo
final sobre o conflito.
Uma guerra permanente na Síria não
beneficia Moscou nem Washington.
Alicerces
fracos
Entretanto, sem um nível básico de
confiança e entendimento, qualquer tentativa de diálogo será construída sobre
alicerces fracos.
Ninguém sabia como as coisas
aconteceriam, mas sabia-se que o fim da Guerra Fria traria consigo uma nova
era.
Durante certo tempo a Rússia saiu do
cenário global, mas agora retornou com mais força, desejosa de consolidar sua
posição nas áreas vizinhas, recuperar um pouco do antigo protagonismo mundial e
equilibrar o que vê como uma humilhação do Ocidente.
Afinal, quando tudo desandou? Por que
Rússia e Ocidente não conseguem forjar um tipo diferente de relação? Quem é
responsável por isso?
Insensibilidade
dos EUA ou nostalgia russa?
Podemos descrever o momento atual como
uma nova Guerra Fria?
Não vou tentar responder a todas essas
perguntas.
A
complexidade do assunto exigiria um livro tão longo quanto Guerra
e Paz, de Tolstoi. Mas tentarei dar algumas pistas.
Para Paul Pillar, pesquisador do Centro
de Estudos sobre Segurança da Universidade de Georgetown e ex-agente da CIA (o
serviço secreto americano), os erros iniciais são do Ocidente.
"Essa relação começou a piorar
quando o Ocidente não tratou a Rússia como um país que tinha se livrado do
comunismo soviético", disse Pillar.
"A Rússia tinha que ter sido
recebida dessa forma em uma nova comunidade de nações, mas o que aconteceu é
que o país acabou sendo considerado sucessor da União Soviética, herdando
inclusive o status de principal foco de desconfiança do Ocidente."
Esse pecado original, digamos assim,
foi agravado pelo entusiasmo ocidental em expandir a Otan (Organização do
Tratado do Atlântico Norte), primeiro admitindo países como Polônia, República
Tcheca e Hungria, que tinham uma longa tradição nacionalista e de luta contra o
regime de Moscou.
Mas a expansão da Otan não parou por
ali. Foram acrescentados países bálticos como Lituânia, Estônia e Letônia, que
faziam parte da antiga União Soviética.
Tratamento
injusto
Os críticos perguntam por que razão
Moscou resiste à ideia de que Georgia ou Ucrânia passem para o lado do
Ocidente.
Resumindo, a Rússia acredita que foi tratada
injustamente desde o fim da Guerra Fria.
Claro que esse não é o pensamento
vigente no Ocidente, que prefere destacar o revanchismo russo, personificado
por Vladimir Putin, homem que descreveu o colapso da União Soviética como
"a maior catástrofe geopolítica" do século 20.
Há um debate interessante entre
especialistas americanos sobre qual dos lados teria razão.
Devemos nos voltar para os erros
estratégicos iniciais do Ocidente ao lidar com a nova Rússia ou considerar as
recentes ações de Moscou na Geórgia, Síria ou Ucrânia?
John Sawers, ex-chefe do MI6 (o serviço
secreto britânico) e ex-embaixador britânico nas Nações Unidas, observou o
desenvolvimento da diplomacia russa. Ele prefere falar do período mais recente.
Em entrevista à BBC, Sawers disse que,
nos últimos oito anos, o Ocidente não deu atenção suficiente ao estabelecimento
de uma relação estratégica correta com a Rússia.
Sinais
contraditórios
"Se houvesse um entedimento claro
entre Washington e Moscou sobre as normas que devem ser adotadas - para que um
país não prejudique o outro - a solução de problemas regionais como Síria,
Ucrânia ou Coreia do Norte poderia ser mais simples", disse.
Vários outros especialistas também
destacam o papel da diplomacia do governo Obama, que frequentemente enviou
sinais contraditórios.
O poder absoluto de Washington talvez
esteja diminuindo, mas as vezes os EUA parecem divididos sobre os diferentes
níveis de poder que lhe restam.
As perguntas se sucedem:
Estariam os EUA voltando sua atenção
para a Ásia e até que ponto o país tem realmente minimizado seu papel na Europa
e no Oriente Médio?
Washington está preparado para apoiar
sua retórica com o uso da força? (Na Síria, essa resposta tem sido não.)
Os EUA realmente pensaram nas
implicações das suas posições em relação a Moscou?
Em 2014, às vésperas da anexação da
Crimeia, Putin discursou no Parlamento russo e advertiu:
"Se você comprime uma mola até o
limite máximo, ela voltará com força na direção contrária. Lembrem-se sempre
disso."
O
professor Nikolas Gvosdev observou em artigo na revista americana The National Interest, especializada em política, que
"a resposta prudente seria encontrar formas de reduzir a pressão sobre a
mola ou se preparar para aguentar o golpe quando a mola voltar à forma
original".
Quaisquer que tenham sido os erros do
passado e quem quer que tenha sido responsável por eles, o fato é que agora
chegamos onde estamos.
E onde estamos? Estão EUA e Rússia à
beira de um conflito pela Síria? Não creio. Então por que existe a ideia de que
estamos entrando num novo período de Guerra Fria?
Competição
por influência
O ex-agente da CIA Paul Pillar acha que
esse não é o termo correto.
"Não estamos vendo o tipo de
competição ideológica que caracterizou a Guerra Fria e felizmente já não temos
outra corrida nuclear armamentista", explicou.
"O que resta é uma grande
competição por influência. A Rússia é uma potência menos expressiva do que foi
a União Soviética e do que a superpotência que os EUA ainda são".
E quanto ao futuro? Às vésperas das
eleições presidenciais nos EUA, Moscou talvez acredite que por enquanto tem o
caminho livre.
Há sinais de que os russos estão
tentando usar esse caminho para criar várias zonas de conflito de tal maneira
que o próximo ocupante da Casa Branca se veja diante de um fato consumado.
É uma situação parecida com a de 2008,
quando as relações EUA-Rússia foram congeladas na véspera da entrada dos russos
na guerra contra a Geórgia.
Isso causou um desastre na política do
governo George W. Bush em relação a Moscou e é um caos herdado pelo presidente
Obama.
Lembram do famoso "recomeço"
das relações com a Rússia pregado por uma Secretária de Estado americana
chamada Hillary Clinton? Bem, isso não avançou muito.
Desafio
para o próximo presidente dos EUA
John Sawers disse à BBC que "o
próximo presidente dos EUA - espero que seja Hillary - tem a grande
responsabilidade de estabelecer um tipo diferente de relação".
"Não estamos buscando uma relação
mais quente com a Rússia, tampouco uma relação mais fria", afirmou.
"O que buscamos é um entendimento
estratégico com Moscou sobre como atingir a estabilidade global, em toda a
Europa e entre a Rússia e EUA, para que a estabilidade fundamental do mundo
tenha uma base mais sólida do que teve até agora".
Sawers concluiu que a chamada "Pax
Americana" - a paz relativa no Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial -
foi um período muito curto, que agora terminou.- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Considerações do Gal. Orlov:
Análise interessante e até surpreendente, vindo do BBC, mas como o próprio autor escreveu, incompleta.
Além da expansão da OTAN em direção às fronteiras da Rússia idealizada ainda no início da década de 90, quando a Rússia não representava ameaça para ninguém, e corria mesmo o risco de se desintegrar, o articulista esqueceu de ponderar o abandono, por parte de Washington, em dezembro de 2001, do Tratado Antimísseis Balísticos (ABM), firmado em 1972. Além de proibir a instalação de componentes de “escudos” antimísseis perto das fronteiras dos países antagônicos, estipulava que cada nação poderia manter apenas duas instalações antimísseis: uma para proteger a capital e outra a pelo menos
Essa retirada injustificada (sob as mentirosas alegações de Irã, Coréia do Norte e, à época, Iraque), foi a “recompensa” que os russos tiveram por terem cooperado e se solidarizado com os americanos logo após o 11 de setembro. Putin foi o primeiro líder mundial que conseguiu contato com o Presidente Bush se solidarizando, oferecendo cooperação antiterrorista, e ainda (o que foi mais simbólico, mas não menos significativo), que não colocaria as forças nucleares russas no estado de alerta correspondente, o que seria automático, pois os EUA já se encontravam no DEFCON 2 (segundo nível de alerta máximo, ataque nuclear provável).
Na Geórgia, em 2008, até uma comissão investigativa da União Européia constatou que foi a própria Geórgia quem iniciou o conflito, abrindo fogo de artilharia pesada contra tropas de paz russas (autorizadas pela ONU) que encontravam-se na Ossétia do Sul. Lembrem que desde 2003, os Estados Unidos e vários outros países do Ocidente, depois da chamada “Revolução das Rosas”, forneciam armas e treinamentos para as tropas georgianas. A Geórgia começou o ataque na Ossétia justamente em plena cerimônia de abertura dos Jogos de Pequim, porém em 5 dias, o Exército Russo, até então tachado de obsoleto e débil pela imprensa e "analistas" ocidentais, destruiu todo aparato militar da Geórgia, inclusive sua flotilha. Chegaram inclusive a capturar sistemas de armas israelenses e viaturas blindadas de fabricação norte-americana.
Todavia, muito embora as maiorias populacionais da Ossétia do Sul e da Abkházia pleiteassem a independência da Geórgia, e no caso da primeira, a anexação à Rússia, Moscou não as anexou muito menos provocou a desestabilização da região.
Também na Ucrânia, a presença do senador norte-americano John McCain, funcionários do Depto. de Estado e outros políticos europeus
Pior do que isso, enquanto o impasse perdurava, no início de 2014, Ângela Merkel havia conseguido um compromisso com Yanukovitch e os Black-blocs: o primeiro desconcentraria os poderes e deixaria o cargo dentro de alguns meses, e as eleições (que já seriam no final de 2014 mesmo) seriam antecipadas. Mas os Black-blocs descumpriram o acordo, tomaram o poder à força e o resultado, depois de dois anos: colocaram outro corrupto no poder, Poroshenko, liderança dúbia a qual vários aliados do golpe, inclusive seu primeiro-ministro, já abandonaram. Sem falar que a Ucrânia está completamente falida, mesmo com toda ajuda do Ocidente, conseguiram acabar com seu importante parque tecnológico, em outras palavras, a fabricante de aeronaves Antonov foi liquidada há poucos meses. Sua estratégica indústria de foguetes, antes considerada uma das mais importantes do mundo, infelizmente, hoje não lança mais nem um busca-pé.
Diante disso, tropas russas, baseadas na Criméia, região que, após a expulsão dos turcos no século XVIII sempre foi russa, e a qual quase 90% da população é de etnia russa, realmente tomaram posições por toda a península, pois os serviços secretos russos tiveram informação de que uma das primeiras medidas do governo de Poroshenko, seria desalojar as bases navais russas da região (dentre elas a principal do Mar Negro), bem como ceder o espaço para a OTAN e seu sistemas antimísseis. Mesmo assim, uma consulta popular foi feita, e como era de se esperar, mais de 90% dos habitantes se mostraram favoráveis a voltarem a fazer parte da Federação Russa, corrigindo uma injustiça história cometida arbitrariamente por Nikita Khruschov. Se a Rússia realmente é o monstro expansionista e imperialista, pergunta-se: por que não o fez isso em 2004, depois da eclosão da “Revolução Laranja”, mutatis mutandi, quase a mesma coisa??
Foi especialmente isso que tanto enfureceu os americanos. Obama e seus políticos estavam radiantes, pois haviam arrebatado a Ucrânia para sua influência para sempre, depois de muitos anos de tentativas fracassadas. Mas Putin deu-lhes o xeque-mate com a anexação da Criméia. Os americanos e os países do Ocidente dizem que foi ilegal. Mas se esquecem, que sempre bradaram a favor da soberania e autodeterminação dos povos, apoiaram diversos movimentos separatistas no mundo, inclusive, no Kosovo, em 1999, quando bombardearam criminosamente a Sérvia. Ou seja, o desejo popular só importa quando lhes convêm??
Os ucranianos da junta de Kiev, os países europeus e os Estados Unidos, jamais conseguiram comprovar, por uma mísera foto de satélite, que seja, a presença de armas e artilharias do Exército Russo nas regiões ucranianas do leste, de maiorias russas. A única coisa que conseguem mostrar, são um ou outro russo desempregado, que já havia dado baixa no Exército, combatendo com as guerrilhas de Donetsk e Lugansk. Mas há até brasileiros, italianos e (pasmem) norte-americanos nessas fileiras, por questões financeiras ou pessoais/ideológicas. Ao contrário do que repetem, não há apoio russo a esses movimentos; perguntem aos líderes dessas milícias o que eles acham de Putin e da Rússia, desde o Golpe de 2014, eles se consideram abandonados e traídos pelos russos. Mas a imprensa ocidental, sem um único correspondente no local, insiste em enganar o público.
Putin está muito mais empenhado em chegar a um acordo político que contemple essas regiões de maioria russa na Ucrânia do que a liderança da junta de Kiev. Até os líderes europeus sabem disso. Poroshenko e seus patrões norte-americanos devem lembrar que Rússia e Ucrânia sempre foram unidas por verdadeiros laços umbilicais. Forçar abruptamente uma ruptura, como fizeram, em 2014, só podia resultar em desastre. Como afirmado acima, a Ucrânia arruinou completamente seu parque aeroespacial, ficará agora sujeita a mera exportadora de grãos para a Europa; mesmo a indústria militar e espacial russa sentiu os efeitos dessa ruptura, tiveram que procurar outros fornecedores ou passar a fabricar alguns componentes necessários. Isso sem falar dos laços históricos, culturais e mesmo trágicos que sempre as uniram. Hoje tentam inclusive reescrever a História, como se os milhões de mortos pela fome por culpa da coletivização forçada de Stalin tivesse sido um plano exclusivo concebido pela etnia russa para eliminar apenas os ucranianos, esquecendo, que, na mesma época, muito mais russos morreram pela mesma fome, principalmente nos Urais.
Sabemos que nossos jornalistas e "analistas" que se põem a escrever sobre esses assuntos, são verdadeiros boçais em História e Geografia, mas hoje em dia as informações estão disponíveis a todos, não têm mais desculpas, basta estudar e escrever com imparcialidade.